O que é normal, o que merece avaliação e por que nem tudo é infecção. Quase toda mulher já se assustou com uma secreção diferente na calcinha. A maior parte das vezes, é o corpo funcionando como deveria. Este guia ajuda a separar o que faz parte do que realmente merece uma consulta — e explica por que cor e cheiro, sozinhos, não fecham diagnóstico.

A secreção vaginal faz parte do corpo funcionando. O que muda a conversa é o desconforto que vem junto.

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A secreção que faz parte

Ela existe para limpar, lubrificar e proteger — e muda ao longo do mês

Como ela costuma variar no ciclo
Um roteiro geral, não uma regra fixa
Logo depois da menstruação
Pouca secreção, mais espessa, branca ou clara.
Perto da ovulação
Aumenta, fica transparente e escorregadia, parecida com clara de ovo.
Depois da ovulação
Volta a ficar mais espessa e esbranquiçada, em menor quantidade.
Antes da menstruação
Pode aumentar de novo, com aspecto mais leitoso.

Fora do ciclo, outras situações também aumentam a secreção e continuam sendo normais: a gravidez, a excitação sexual e as mudanças hormonais — início ou troca de anticoncepcional, pós-parto, amamentação e a transição para a menopausa. A quantidade que é “a sua” também varia de pessoa para pessoa.

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O que é esperado e o que merece avaliação

A diferença quase nunca está na secreção sozinha, e sim no que vem com ela

Costuma ser esperado
  • Secreção transparente, branca ou leitosa
  • Quantidade e consistência que mudam ao longo do mês
  • Mais abundante e elástica perto da ovulação
  • Aumento na gravidez e na excitação sexual
  • Um odor próprio e discreto, que é seu
  • Sem coceira, sem ardor, sem dor e sem ferida
Merece avaliação
  • Odor forte ou diferente do seu habitual
  • Coceira, ardor ou irritação
  • Dor — pélvica, na relação ou ao urinar
  • Sangramento fora da menstruação
  • Feridas, fissuras ou bolhas na vulva
  • Febre
  • Mudança do seu padrão que persiste

Nem toda secreção é infecção. Muita mulher chega ao consultório achando que está com “alguma coisa” só porque notou secreção — e sai com a informação de que está tudo certo. Por outro lado, algumas das causas mais comuns de corrimento alterado quase não dão sintoma: a maioria das pessoas com vaginose bacteriana não sente nada, e entre 70% e 85% das pessoas com tricomoníase têm poucos sintomas ou nenhum. Por isso o que decide não é o susto: é a avaliação.

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Quando algo muda, o que pode ser

Cada causa tem um tratamento diferente — por isso o diagnóstico vem antes

As causas mais comuns
Vaginose bacteriana
Uma mudança no equilíbrio das bactérias que vivem na vagina — não é uma IST. É a causa mais comum de corrimento no mundo. Costuma vir com odor mais marcante, sobretudo depois da relação, mas a maioria das pessoas com vaginose não tem sintoma nenhum.
Candidíase vulvovaginal
A coceira é o que mais chama atenção, junto de secreção espessa e esbranquiçada. Cerca de 75% das mulheres têm pelo menos um episódio na vida. Encontrar Candida sem sintoma não é motivo para tratar: 10% a 20% convivem com o fungo sem nenhuma doença.
Tricomoníase
É uma infecção sexualmente transmissível. Entre 70% e 85% das pessoas têm poucos sintomas ou nenhum, o que faz ela passar despercebida com frequência. O parceiro também precisa ser tratado.
Cervicites — clamídia e gonorreia
Aqui a inflamação é no colo do útero, e também são IST. Muitas vezes não dão sintoma; quando dão, podem causar corrimento, sangramento fora do período e dor. São as que mais importam não deixar passar.
E o que não é infecção
Possibilidades que passam batido com frequência
Irritação por produtosSabonetes perfumados, lenços íntimos, duchas, absorventes e amaciantes.
Manipulação excessivaLavar demais, esfregar ou examinar a região irrita a pele e piora a sensação.
Alterações hormonaisAnticoncepcional, pós-parto, amamentação e a transição da menopausa.
Síndrome geniturinária da menopausaCom a queda do estrogênio vêm ressecamento e ardor — e o tratamento é outro.
Dermatoses da vulvaCondições de pele que causam coceira e ardor e não melhoram com antifúngico.
Corpo estranhoUm absorvente interno esquecido, por exemplo, causa corrimento com odor forte.
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Os exames — e o que cada um responde

O Papanicolau é ótimo no que faz, mas não é o exame do corrimento

Cor, cheiro e consistência não fecham diagnóstico

As causas de corrimento se parecem demais entre si para serem separadas só pelo aspecto. As diretrizes são diretas nesse ponto: a história clínica isolada não basta para diagnosticar uma vaginite e leva a tratamento inadequado, e quem já teve candidíase antes não acerta melhor o próprio diagnóstico nas vezes seguintes. É por isso que “esse corrimento parece o da outra vez” é uma pista, nunca uma conclusão.

Para que serve cada exame
Papanicolau (CCO)
Rastreia alterações das células do colo do útero — é para isso que ele existe, e nisso é excelente. Ele não foi feito para dizer a causa de um corrimento. Quando o laudo menciona inflamação, Candida ou mudança da flora, esses achados podem ser incidentais e não devem determinar tratamento sozinhos. E o contrário também vale: um Papanicolau normal não exclui vaginose, candidíase, tricomoníase nem cervicite.
Microscopia da secreção (bacterioscopia)
É o exame que olha a secreção ao microscópio: a microbiota, as células-guia, estruturas fúngicas, tricomonas, leucócitos e sinais de inflamação. Costuma vir junto com o pH vaginal e o teste das aminas, feitos na própria consulta. É o que mais muda a conduta no dia a dia.
Cultura
Ajuda principalmente nos casos que voltam, persistem ou são mais complicados — por exemplo, para identificar qual espécie de Candida está envolvida, porque nem todas respondem igual.
Testes moleculares (PCR / NAAT)
Bastante sensíveis para tricomoníase, clamídia e gonorreia, entre outros agentes. Entram conforme a hipótese clínica, e não como rotina para todo mundo.

Nenhum exame é ideal para todos os casos. O resultado se lê junto com os sintomas e o exame ginecológico — e encontrar um microrganismo não significa automaticamente que ele esteja causando doença ou que precise ser tratado.

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O tratamento e o controle de cura

Tratar bem é escolher pelo exame — e depois conferir se o ambiente voltou ao normal

O tratamento certo começa pelo exame certo

Vaginose, candidíase, tricomoníase e cervicite têm medicações, vias e durações diferentes — e o remédio de uma pode não fazer nada pela outra. Por isso a escolha vem da microscopia, somada ao pH, ao teste das aminas e ao exame ginecológico, e não do aspecto do corrimento nem do que resolveu da última vez. Tratar “no chute” costuma custar caro: alivia por alguns dias, atrasa o diagnóstico e faz o quadro voltar.

O que a bacterioscopia mostra — e por que ela pesa tanto
Quem está lá
Lactobacilos, outras bactérias, leveduras, tricomonas, células-guia e leucócitos aparecem cada um com a sua cara na lâmina.
Em que proporção
Este é o ponto que mais importa. O que define o quadro não é a presença isolada de um microrganismo, e sim o equilíbrio entre eles. Uma vagina saudável é dominada por lactobacilos; quando eles desaparecem e outras bactérias ocupam o espaço, isso é vaginose. É por isso que a bacterioscopia diz muito mais do que uma lista de nomes.
Se há inflamação
A quantidade de leucócitos e o aspecto das células mostram se existe resposta inflamatória — o que ajuda a separar as causas entre si.
Se o tratamento funcionou
Repetida depois, ela mostra se a flora voltou ao padrão de lactobacilos. É o que separa “os sintomas passaram” de “o ambiente se recuperou”.
O escore de Nugent
Uma nota de 0 a 10 para o padrão da flora
0 a 3
Flora normalPredomínio de lactobacilos — o padrão que se espera encontrar.
4 a 6
Flora intermediáriaZona de transição: os lactobacilos já diminuíram, mas ainda não é vaginose.
7 a 10
Vaginose bacterianaOs lactobacilos praticamente sumiram e outras bactérias dominam.

O Nugent é feito na lâmina corada pelo Gram e avalia justamente a proporção entre três tipos de bactéria: os lactobacilos, os bacilos pequenos do grupo da Gardnerella e os bacilos curvos do grupo Mobiluncus. Ele transforma esse equilíbrio em um número — e é por isso que serve tão bem para comparar antes e depois do tratamento.

Quando repetir o exame
Vaginose e candidíase
Quando os sintomas resolvem por completo, nem sempre é preciso repetir. Mas se o quadro persiste, volta ou nunca melhorou de todo, a bacterioscopia depois do tratamento mostra se a flora se recuperou — e evita repetir cegamente o mesmo remédio.
Casos de repetição
Nos quadros recorrentes, a cultura com identificação da espécie entra junto, porque nem toda Candida responde ao tratamento habitual.
Tricomoníase
Reteste recomendado cerca de 3 meses depois do tratamento, pela alta taxa de reinfecção — mesmo que o parceiro tenha sido tratado.
Clamídia e gonorreia
Também cerca de 3 meses depois. Na gestação existe ainda o controle de cura, cerca de 4 semanas após o fim do tratamento.

Repetir o exame não é desconfiança do tratamento: é a forma de confirmar que o ambiente vaginal voltou ao seu padrão — e é exatamente isso que reduz a chance de o quadro voltar.

O que evitar enquanto isso
AutomedicaçãoAntifúngico ou antibiótico por conta própria trata a hipótese errada com frequência e mascara o quadro.
Antifúngico a cada episódioSe os sintomas persistem depois de um creme de farmácia, ou voltam em menos de 2 meses, o caminho é avaliar.
Duchas vaginaisNão limpam nem corrigem nada. Desequilibram ainda mais o ambiente da vagina.
Receitas caseirasBicarbonato, vinagre, iogurte, óleos e antissépticos irritam a mucosa e atrasam o diagnóstico certo.

A secreção vaginal faz parte do funcionamento saudável do corpo. Mudança acompanhada de desconforto merece ser avaliada — é assim que se chega ao tratamento certo e se evitam os desnecessários. Este material é informativo e não substitui a consulta médica.

Fontes consultadas
1. Centers for Disease Control and Prevention (CDC). STI Treatment Guidelines, 2021 — Vaginitiscdc.gov/std/treatment-guidelines/vaginal-discharge.htm
2. CDC. STI Treatment Guidelines, 2021 — Bacterial Vaginosiscdc.gov/std/treatment-guidelines/bv.htm
3. CDC. STI Treatment Guidelines, 2021 — Vulvovaginal Candidiasiscdc.gov/std/treatment-guidelines/candidiasis.htm
4. CDC. STI Treatment Guidelines, 2021 — Trichomoniasiscdc.gov/std/treatment-guidelines/trichomoniasis.htm
5. IUSTI / Organização Mundial da Saúde. Sherrard J et al. 2018 European (IUSTI/WHO) Guideline on the Management of Vaginal Discharge, com atualização de 2023 — iusti.org
6. FEBRASGO. Vaginites e vaginoses, Protocolo Febrasgo — Ginecologia nº 24, 2018 — febrasgo.org.br
7. American College of Obstetricians and Gynecologists (ACOG). Ask ACOG: Is it normal to have vaginal discharge?acog.org
8. Ministério da Saúde. Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas para Atenção Integral às Pessoas com Infecções Sexualmente Transmissíveis (IST), 2022 — gov.br/aids