De onde vem a vontade, por que ela muda e por que um exame de sangue não responde sozinho. “Será que meu hormônio está baixo?” é uma das perguntas que mais escuto no consultório. É uma pergunta legítima, e os exames têm o seu papel. Mas o desejo feminino se organiza de um jeito diferente do que se costuma imaginar: ele depende do corpo, da cabeça, do contexto e da relação ao mesmo tempo. Este material explica como esse mecanismo funciona — para que a conversa não comece nem termine num resultado de laboratório.
Não existe exame de sangue que diga se o seu desejo está “certo”. O desejo é uma resposta do cérebro — e o cérebro lê o corpo, a história e o contexto ao mesmo tempo.
Existem dois jeitos de sentir vontade
Os dois são normais — e a maior parte das mulheres funciona mais pelo segundo
A vontade aparece do nada, sem que nada em especial tenha acontecido: um pensamento, uma imagem, uma sensação no corpo — e só então você procura o encontro sexual.
- É o modelo que a novela, o cinema e a propaganda mostram
- Costuma ser mais frequente no começo dos relacionamentos, quando tudo ainda é novidade
- É também o padrão mais comum entre os homens — e por isso virou a régua
A vontade não vem antes: ela é a resposta. Começa com um motivo e um estímulo, o corpo responde, e a vontade aparece no meio do caminho — não como pré-requisito para ele.
- É o padrão predominante em mulheres, sobretudo em relações longas
- Não significa desejo menor, e sim desejo com outro ponto de partida
- Depende muito mais de estímulo adequado e de contexto favorável
Quem espera pelo desejo espontâneo e não o sente mais conclui que “perdeu a libido” ou que tem algo errado no corpo. Na maioria das vezes, o que mudou foi só o ponto de partida.
- Esperar a vontade chegar sozinha pode ser esperar por algo que não vem mais assim
- Entender esse funcionamento é parte do tratamento, não conversa fiada
- Muda a pergunta: de “o que há de errado comigo?” para “o que preciso para começar?”
O caminho do desejo, passo a passo
O modelo circular descrito por Rosemary Basson, usado até hoje na sexologia
O ciclo se fecha: uma experiência satisfatória hoje aumenta a motivação da próxima vez. É por isso que tratar dor, ressecamento ou a sensação de cobrança muda o quadro inteiro, e não só aquele encontro.
O acelerador e o freio
Um modelo simples para entender por que a vontade some em certas fases da vida
A pesquisa em sexualidade trabalha com a ideia de que a resposta sexual é o resultado do equilíbrio entre dois sistemas no cérebro: um que ativa e outro que inibe. A metáfora usada pelos autores do modelo é a de um carro com um acelerador e um freio. A sensibilidade de cada um desses pedais varia de pessoa para pessoa — e é justamente essa variação que explica por que duas mulheres na mesma situação respondem de formas tão diferentes. Na prática, quase nunca falta acelerador: o que costuma sobrar é freio.
- Estímulo suficiente e do tipo certo — tempo, toque e o que funciona para o seu corpo
- Sentir-se desejada, segura e à vontade dentro da relação
- Intimidade emocional e conversa aberta com o parceiro sobre o que se quer
- Contexto que permite: privacidade, tempo sem pressa, cabeça livre de tarefas
- Dormir bem, ter energia e sentir-se bem no próprio corpo
- Novidade, expectativa e a memória de experiências boas
- Cansaço e sobrecarga — rotina, trabalho, filhos pequenos, estresse que não passa
- Sensação de ter que funcionar, medo de decepcionar ou de “demorar demais”
- Dor na relação, ressecamento, cicatrizes, endometriose, assoalho pélvico tenso
- Conflito ou mágoa acumulada no casal e falta de conversa sobre o assunto
- Ansiedade e depressão — e também parte das medicações usadas para tratá-las
- Imagem corporal negativa, culpa e experiências passadas difíceis
É aqui que todo tratamento age. A diretriz internacional coloca de forma bem direta: todos os tratamentos eficazes para a falta de desejo produzem mudanças nas vias do cérebro que regulam o desejo, de modo a permitir que a excitação supere a inibição. Ou seja: ou se aumenta o que ativa, ou se reduz o que freia — e o segundo caminho costuma ser o mais produtivo.
O que os exames dizem — e o que não dizem
Eles têm um papel importante, mas não é o de medir a vontade
A recomendação da Sociedade Internacional para o Estudo da Saúde Sexual da Mulher (ISSWSH) é literal nesse ponto: como não existem marcadores laboratoriais que confirmem ou excluam o transtorno do desejo sexual hipoativo, a dosagem de testosterona não deve ser usada para fazer o diagnóstico. Não há um valor de corte que separe quem tem e quem não tem queixa de desejo. O diagnóstico é feito pela conversa, e os exames entram para procurar outra coisa.
Repare no que todos eles têm em comum: os exames procuram o que está atrapalhando. Nenhum deles mede a vontade.
O que costuma pesar
As causas raramente vêm sozinhas — quase sempre são várias, somadas
A FEBRASGO resume assim: fatores psicológicos, biológicos, comportamentais, de relacionamento e ambientais são as principais causas do transtorno do desejo sexual hipoativo. Note a ordem — e note que são cinco domínios diferentes, não um.
O que ajuda
A primeira linha de tratamento não é medicação
Num estudo americano com 31.531 mulheres, 37,7% relataram desejo sexual baixo — mas cerca de 10% tinham, além disso, sofrimento pessoal com essa questão. Essa diferença é exatamente o que define o transtorno do desejo sexual hipoativo: não é a quantidade de vontade, é o incômodo que ela causa em você. Ter menos desejo do que já teve aos 20 anos, menos do que a amiga ou menos do que o parceiro não é doença. O que merece atenção é quando isso te faz sofrer.
Desejo não é um número, e não se mede no sangue. Se a falta de vontade tem incomodado você, isso é motivo suficiente para conversarmos — e existe muito a fazer antes de qualquer medicação. Este material é informativo e não substitui a consulta médica.
Fontes consultadas
2. FEBRASGO. Manejo do transtorno do desejo sexual hipoativo em mulheres no ambiente ginecológico. Position Statement nº 5, maio de 2021 — febrasgo.org.br
3. Basson R. The female sexual response: a different model. Journal of Sex & Marital Therapy, 2000;26(1):51-65 — tandfonline.com
4. Bancroft J, Janssen E. The Dual Control Model of sexual response — The Kinsey Institute, Indiana University — kinseyinstitute.org
5. Shifren JL, Monz BU, Russo PA, et al. Sexual problems and distress in United States women: prevalence and correlates (estudo PRESIDE). Obstetrics & Gynecology, 2008;112(5):970-978 — journals.lww.com