Um guia para entender esta fase, os sintomas e as opções de tratamento. Este guia explica o que muda no corpo, por que os sintomas quase nunca têm uma causa só, o que os exames respondem e o que não respondem, o que as sociedades médicas dizem e defendem sobre a reposição hormonal, e quais são as opções de tratamento — com e sem hormônio.

1

Três palavras diferentes

Perimenopausa, menopausa e pós-menopausa não são sinônimos — e confundi-las muda a conversa

Perimenopausa
A transição
O que é

O período em que os ovários começam a funcionar de forma irregular. Costuma durar de 4 a 8 anos e, na maioria das vezes, começa na casa dos 40.

O que muda
  • O ciclo muda: encurta, alonga, some por um mês e volta
  • É aqui que os sintomas costumam ser mais intensos — e não depois
  • Os hormônios oscilam muito, de mês para mês e até de semana para semana
  • Ainda é possível engravidar — a contracepção continua fazendo parte da conversa
Menopausa
Uma data
O que é

A última menstruação da vida — e só dá para saber olhando para trás: confirma-se depois de 12 meses seguidos sem menstruar.

Quando acontece
  • Em média por volta dos 51 anos; entre 45 e 55 é o esperado
  • Antes dos 45 anos chamamos de menopausa precoce
  • Antes dos 40 é insuficiência ovariana prematura — outra investigação e outra conduta
  • Cirurgia, quimioterapia e radioterapia pélvica podem antecipá-la
Pós-menopausa
O resto da vida
O que é

Todo o tempo depois dessa data. Hoje uma mulher vive, em média, mais de um terço da vida nessa fase — o que muda completamente a importância de cuidar dela.

O que esperar
  • Os calores tendem a diminuir com os anos — mas não em todas
  • Os sintomas genitais e urinários seguem o caminho oposto: pioram se não forem tratados
  • A perda óssea acelera nos primeiros anos após a menopausa
  • O perfil de risco cardiovascular muda, mesmo sem nenhum sintoma
2

Os sintomas

Muito além dos calores — e com durações bem diferentes entre si

Os grupos de sintomas
Duração e comportamento variam muito entre eles
Vasomotores
Ondas de calor, calorões e suores noturnos. Duram de segundos a alguns minutos e variam muito de intensidade.
É o sintoma mais característico e o mais estudado. A duração mediana é de 7,4 anos, dos quais cerca de 4,5 anos depois da última menstruação. Quem começa cedo, ainda na transição, pode conviver com eles por mais de 11 anos.
Sono
Dificuldade para pegar no sono, despertares no meio da noite, sono que não descansa.
Nem sempre é o calor que acorda — o sono piora por conta própria nessa fase. E sono ruim amplifica tudo: humor, memória, dor e apetite.
Humor e cognição
Irritabilidade, ansiedade, choro fácil, “névoa mental”, a palavra que não vem, dificuldade de concentração.
É real e tem base biológica. Mas raramente tem uma causa só — merece ser avaliado de verdade, e não normalizado (“é da idade”) nem descartado.
Genitais e urinários
Secura, ardência, dor na relação, sangramento após a relação, urgência para urinar, infecções urinárias de repetição.
É o único grupo que tende a piorar com o tempo se não for tratado. Ao contrário dos calores, não passa sozinho — e é também o que as mulheres menos contam espontaneamente.
Corpo
Dores articulares e rigidez pela manhã, mudança na distribuição de gordura, pele mais fina e seca, queda de cabelo.
Fortemente influenciado por sono, atividade física, massa muscular e outras condições clínicas — por isso responde bem a intervenções que não são hormonais.
O que não se sente
Nada. Nenhum sintoma.
A perda óssea acelera nos primeiros anos e o perfil de colesterol e de risco cardiovascular muda. É por isso que o acompanhamento continua importante mesmo em quem passa pela menopausa sem queixa nenhuma.
3

Nem tudo é a menopausa

O erro mais comum desta fase acontece nas duas direções

Sintoma nesta fase quase nunca tem uma causa só

A menopausa chega exatamente na década em que outras coisas também chegam: doenças da tireoide, apneia do sono, alterações de humor, sobrecarga de trabalho e de família. Cansaço, insônia, ganho de peso, queda de cabelo e falta de concentração são sintomas inespecíficos — eles não vêm com etiqueta dizendo de onde vieram.

Os dois erros custam caro. Atribuir tudo à menopausa faz perder diagnósticos que teriam tratamento simples. Não atribuir nada a ela faz a mulher passar anos sofrendo à toa, ouvindo que é da idade. O trabalho da consulta é separar o que é de cada coisa — e, quase sempre, tratar mais de uma ao mesmo tempo.

O que sempre entra na conta
Tireoide
Hipo e hipertireoidismo produzem cansaço, alteração de peso, mudança de humor, queda de cabelo e alteração do ciclo. A frequência aumenta justamente nessa faixa etária.
Ferro e vitaminas
Anemia e ferritina baixa — comuns quando o sangramento aumenta na transição — além de vitamina D e B12.
Sono
A apneia do sono aumenta muito depois da menopausa e é subdiagnosticada em mulheres. Ronco, sonolência diurna e cansaço persistente merecem investigação própria.
Saúde mental
Depressão e ansiedade têm um pico nessa fase. Podem ser desencadeadas ou agravadas pela transição, mas têm tratamento próprio e eficaz — não basta repor hormônio.
O momento da vida
É a década dos filhos adolescentes, dos pais que adoecem e do auge da carga de trabalho. Isso não é “coisa da cabeça”: estresse crônico tem efeito fisiológico medível sobre sono, peso e humor.
Hábitos e remédios
Álcool, cafeína, tabagismo e medicamentos de uso contínuo afetam sono, peso, libido e a própria intensidade dos calores.
4

O que os exames dizem — e o que não dizem

Três frases que se ouvem o tempo todo, e o que a evidência responde

Mito 1
O exame diagnostica
“Preciso dosar FSH e estradiol para saber se estou na menopausa”

Depois dos 45 anos, em mulher saudável com sintomas típicos e mudança de ciclo, o diagnóstico é clínico — nenhum exame de sangue é necessário. Na transição os hormônios oscilam tanto que o mesmo exame pode vir “normal” numa semana e “alterado” na seguinte.

O FSH tem papel em situações específicas: abaixo dos 40 anos, entre 40 e 45, ou quando não dá para acompanhar o ciclo. E não se usa FSH em quem está tomando anticoncepcional combinado.

Mito 2
Exame normal, sintoma não
“Meus exames vieram normais, então não pode ser a menopausa”

Pode, sim. Não existe um valor de corte que explique ou exclua sintoma. Duas mulheres com exatamente o mesmo estradiol podem ter experiências opostas — uma sem queixa alguma, outra com calores diários.

O que varia é a sensibilidade individual à queda e à oscilação hormonal, e isso nenhum exame mede. Exame normal nunca invalida o que você está sentindo.

Mito 3
O número decide
“O nível do hormônio decide se eu preciso repor, e quanto”

Não decide. A indicação de tratar nasce dos sintomas, do quanto eles incomodam, do perfil de risco de cada mulher e da preferência dela — não de um número no papel.

Durante o tratamento vale a mesma lógica: o ajuste de dose é feito pela resposta clínica. Dosar hormônio de rotina para “acertar a dose” não é recomendado e costuma levar a doses desnecessariamente altas.

5

Testosterona: o que as sociedades realmente dizem

Um dos assuntos mais distorcidos da saúde da mulher hoje

Existe uma única indicação com evidência — e ela é bem estreita

O consenso global sobre testosterona em mulheres, assinado pelas principais sociedades de menopausa e endocrinologia do mundo, é direto: a única indicação baseada em evidência é o tratamento do transtorno do desejo sexual hipoativo em mulheres na pós-menopausa, e mesmo assim depois de uma avaliação biopsicossocial completa — porque desejo tem muito mais determinantes do que hormônio.

Ponto a ponto
Consenso global e Anvisa
Para energia, disposição, humor e memória
Não há evidência que sustente o uso. O consenso avaliou especificamente cognição, bem-estar geral e humor — e não encontrou base para indicar testosterona para nenhum deles.
Para massa muscular e osso
Também sem evidência suficiente. Massa magra, força e densidade óssea foram avaliadas e não sustentam a indicação.
“Minha testosterona está baixa”
Nenhum nível sanguíneo de androgênio separa mulheres com e sem disfunção sexual. Não existe “testosterona baixa” como diagnóstico que justifique reposição — o exame não é usado para selecionar quem trata.
Quando indicada, como se usa
Em dose fisiológica e por via transdérmica, com dosagem de controle apenas para garantir que o nível não ultrapasse a faixa normal da mulher. Se não houver benefício em 6 meses, suspende-se.
Formas que não são recomendadas
Testosterona oral (piora o perfil lipídico), injetável e implantes/pellets — todos produzem níveis suprafisiológicos. Preparações manipuladas “bioidênticas” também não são recomendadas.
Implantes manipulados no Brasil
Em outubro de 2024 a Anvisa suspendeu a manipulação, a comercialização, a propaganda e o uso de implantes hormonais manipulados — os chamados “chips”. A decisão veio depois de relatos de infarto, trombose e AVC, e da constatação de que não há como controlar a dose liberada.
O que o excesso causa
Acne, oleosidade, aumento de pelos e queda de cabelo com padrão masculino. Em doses altas, engrossamento da voz e aumento do clitóris — e esses dois podem ser irreversíveis.
6

A terapia hormonal

Quando faz sentido, por quais vias, e quando não é uma opção

Quando faz sentido começar
A janela de oportunidade
Antes dos 60 anos ou dentro dos primeiros 10 anos após a menopausa. Nesse cenário, para a mulher saudável e com sintomas, os benefícios superam os riscos — inclusive do ponto de vista cardiovascular.
Fora da janela
Iniciar depois dos 60 anos ou mais de 10 anos após a menopausa aumenta o risco absoluto de doença cardiovascular, trombose e AVC. Como regra geral, não se inicia — o que não é o mesmo que interromper em quem já vinha usando bem.
O que ela trata bem
É o tratamento mais eficaz para os sintomas vasomotores, e trata também os sintomas genitais e urinários. Protege o osso e ajuda no sono e no humor quando estes estão ligados aos calores.
Por quanto tempo
Não existe prazo fixo nem idade obrigatória para parar. A decisão é reavaliada periodicamente, pesando benefício, sintomas e mudança do perfil de risco ao longo dos anos.
Vias e formas
A via muda o risco — não só a comodidade
ApresentaçãoO que muda na prática
Estrogênio transdérmico
Gel, adesivo ou spray, na pele
Não passa pelo fígado antes de circular, o que evita o efeito sobre a coagulação. É a via preferida em obesidade, hipertensão, dislipidemia, síndrome metabólica, enxaqueca e qualquer situação de maior risco de trombose.
Estrogênio oral
Comprimido diário
Eficaz e cômodo, mas passa pelo fígado, com mais efeito sobre coagulação e triglicérides. Continua sendo uma boa opção para quem não tem esses fatores de risco.
Progesterona
Cápsula, ou o SIU hormonal dentro do útero
O estrogênio sozinho faz o endométrio — o revestimento interno do útero — crescer sem parar. Esse crescimento excessivo se chama hiperplasia: começa com espessamento e sangramento fora de hora e, com o tempo, pode evoluir para câncer de endométrio. A progesterona (ou o SIU hormonal) freia esse crescimento — por isso não é opcional em quem tem útero.
Estrogênio vaginal
Creme, óvulo, comprimido ou anel
Trata os sintomas genitais e urinários. A absorção para o resto do corpo é mínima, pode ser usado por tempo indeterminado e se associa à terapia sistêmica quando a secura persiste. Segue regras próprias, diferentes das da terapia sistêmica.
Hidratantes e lubrificantes
Sem hormônio nenhum
Hidratantes vaginais de uso regular e lubrificantes na hora da relação ajudam bastante. Combinam com qualquer tratamento — ou são usados sozinhos, quando o hormônio não é uma opção.
Contraindicações absolutas à terapia hormonal sistêmica
Lista para conversar, não para se autoexcluir
Câncer
Câncer de mama atual ou prévio, e outros tumores dependentes de estrogênio, como o de endométrio
Sangramento
Sangramento vaginal de causa não esclarecida — investiga-se antes de qualquer coisa
Trombose em atividade
Trombose venosa ou embolia pulmonar na fase aguda. Um episódio antigo e já tratado não é contraindicação absoluta — é avaliado caso a caso
Doença cardiovascular
Infarto, angina ou AVC — doença cardiovascular já estabelecida
Fígado
Doença hepática grave em atividade, e porfiria
Gravidez
Suspeita ou confirmada
Doenças crônicas não impedem — precisam estar controladas

Hipertensão, diabetes e colesterol alto não excluem ninguém do tratamento, mas devem estar bem controlados antes de começar — e nesses casos a via transdérmica costuma ser a preferida. O mesmo vale para trombose antiga, trombofilia e enxaqueca com aura: são situações para avaliar com cuidado, não exclusões automáticas. E o estrogênio vaginal em dose baixa segue regras próprias, diferentes das da terapia sistêmica — em muitas dessas condições ele continua possível.

7

Sem hormônio, o que funciona

A lista da Sociedade de Menopausa separa o que tem evidência do que não tem

Com evidência
Para os calores
Recomendados
  • Terapia cognitivo-comportamental e hipnose clínica — as duas abordagens não medicamentosas com melhor evidência
  • Antidepressivos das classes ISRS e IRSN, em doses específicas para esse fim
  • Gabapentina, especialmente quando os suores noturnos atrapalham o sono
  • Oxibutinina
  • Fezolinetanto — primeiro não hormonal desenvolvido especificamente para os fogachos, aprovado pela Anvisa em junho de 2026. Age no centro de temperatura do cérebro, sem hormônio
  • Perda de peso, em quem tem excesso
Sem evidência suficiente
Para os calores
Não recomendados para tratar fogachos
  • Suplementos e fitoterápicos em geral, incluindo cimicífuga (black cohosh)
  • Isoflavonas de soja e o metabólito equol
  • Respiração ritmada, técnicas de resfriamento e evitar gatilhos
  • Exercício, ioga, mindfulness e técnicas de relaxamento
  • Acupuntura, canabinoides, quiropraxia
  • Clonidina, pregabalina e mudanças específicas de dieta
Atenção a uma armadilha desta lista

“Sem evidência para tratar fogacho” não quer dizer “não serve para nada”. Exercício físico, sono regular, alimentação equilibrada e manejo do estresse continuam sendo fundamentais nesta fase — pelo osso, pelo coração, pelo humor, pela composição corporal e pela qualidade de vida. O que os estudos mostram é apenas que eles, sozinhos, não reduzem a frequência das ondas de calor. São coisas diferentes, e vale a pena não confundir uma com a outra.

Posso engravidar na perimenopausa?

Pode. Enquanto houver menstruação, mesmo irregular, há chance de ovulação. A recomendação usual é manter contracepção até um ano sem menstruar, se isso ocorrer depois dos 50, ou até dois anos, se ocorrer antes.

Faço terapia hormonal e ainda tenho secura. É normal?

É comum. A terapia sistêmica nem sempre resolve o sintoma genital, e nesses casos associa-se o estrogênio vaginal — as duas coisas convivem sem problema.

Tenho contraindicação. Então não tem nada a fazer?

Tem bastante. As opções não hormonais com evidência tratam bem os calores, e os sintomas genitais respondem a hidratantes, lubrificantes e, em muitos casos, a estrogênio vaginal — que tem regras próprias.

Quatro pontos para levar daqui
Menopausa é uma data, não um exameDepois dos 45 anos o diagnóstico é clínico. Dosar hormônio na transição diz pouco, porque os valores oscilam de semana para semana.
Exame normal não invalida sintomaNão existe valor de corte que explique como você se sente. E nenhum número decide, sozinho, se você precisa ou não de tratamento.
Testosterona tem uma indicação sóDesejo sexual hipoativo em mulher já com a reposição hormonal adequada, após avaliação completa. Nada além disso tem respaldo — e implantes manipulados estão proibidos no Brasil desde 2024.
Existe tratamento — váriosCom hormônio dentro da janela de oportunidade, ou sem hormônio quando ele não é uma opção. Conviver com sintoma incapacitante não é o único caminho.

Este material é informativo e não substitui a consulta médica. A indicação de qualquer tratamento na menopausa deve ser individualizada, e depende do seu histórico, dos seus sintomas e do seu perfil de risco. Em caso de dúvidas ou sintomas novos, entre em contato com o consultório.

Fontes consultadas
Diagnóstico clínico e uso de exames: NICE — Menopause: identification and management (NG23). Duração dos sintomas vasomotores: Avis NE et al., estudo SWAN — Duration of Menopausal Vasomotor Symptoms Over the Menopause Transition, JAMA Internal Medicine, 2015. Terapia hormonal, janela de oportunidade e contraindicações: FEBRASGO, em conjunto com a Sociedade Brasileira de Cardiologia e a Associação Brasileira de Climatério — diretrizes de outubro de 2024; The Menopause Society — 2022 Hormone Therapy Position Statement. Testosterona: Global Consensus Position Statement on the Use of Testosterone Therapy for Women (2019), assinado por sociedades internacionais de menopausa e endocrinologia. Implantes hormonais manipulados: Anvisa — resolução de outubro de 2024; FEBRASGO. Terapias não hormonais: The Menopause Society — 2023 Nonhormone Therapy Position Statement. Fezolinetanto: aprovação pela Anvisa, junho de 2026.